BRASIL , Sudeste , BELO HORIZONTE , Homem , de 26 a 35 anos
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      Lenda urbana

Este é um caso verídico. Bom... quem me contou garantiu que era.

 

Guilherme Castilho era um cara com um currículo invejável. Passou no vestibular de uma universidade pública em um dos primeiros lugares,  conseguiu os melhores estágios, fala inglês, mandarim e polaco (essa língua existe?), enfim. O profissional do futuro, segundo qualquer reportagem ficctícia da revista Você S.A.

 

Logo depois de formado, Guilherme conseguiu emprego em uma das firmas mais cobiçadas pelos colegas de sua área. Fato esse que fez questão de espalhar pelos quatro cantos, como uma espécie de cumprimento inicial. Toda vez que algum conhecido se aproximava, ao invés do tradicional “oi”, ele dizia:

 

Conhecido – Oi, Guilherme, tudo bem?

Guilherme  - Fui contratado pela LTD & A Associados. Vou começar como trainee, mas tenho grandes chances de subir lá dentro. O pessoal lá gosta muito do meu trabalho.

Fulano - ...

Guilherme – A propósito, como você está?

 

Guilherme teve sorte, começou trabalhando ao lado do seu Teixeira, grande chefe do departamento. Tinha certeza de que, mais cedo ou mais tarde, seu talento iria ser reconhecido. No primeiro dia, fez questão de chegar antes do big boss e, quando viu ele se aproximar, lançou-se rapidamente da cadeira, estendeu-lhe a mãe e falou animadamente:

 

Guilherme – Bom dia seu Teixeira, como senhor está?

 

Seu Teixeira nem sequer mudou a fisionomia ao ver o jovem recém-contratado. Olhou o garoto, virou a cara e seguiu para sua sala. Guilherme logo pensou consigo: “velho escroto, ele vai me cumprimentar, assim que perceber o meu potencial. Não dou uma semana”.

 

Passou-se um ano. E todo dia era a mesma história. Seu Teixeira chegava, Guilherme se jogava, e... Nada. Seu Teixeira solenemente ignorava o empregado, não importava o tipo do comprimento, a cor da camisa, nada... Nada que Guilherme fazia causava impacto ao velho capitalista imundo. “Pedra de gelo safado, ele vai ver”, pensava o jovem nervoso, que já pensava se tratar de uma alguma antipatia gratuita.Uma sensação ruim começou a rondar Guilherme. “Esse cara não gosta de mim, serei demitido, mais cedo ou mais tarde....”.

 

Um pânico súbito tomou o coração do garoto. Não! Isso ele não poderia admitir! Demitido? Logo ele? Com um currículo invejável? Sem chances. Sua primeira providência foi matricular-se em um MBA, um curso de mandarim e uma aula de squash (nove entre dez executivos jogam squash, o outro é seu Teixeira). Participou de todas as atividades extras propostas pela empresa. Vida pessoal? Que nada... Profissional de sucesso pensa na vida pessoal após os 40 e ele só tinha 27, cáspita.

 

Enfim, fez tudo isso, na esperança de que os boatos de seu esforço chegassem ao ouvido de seu Teixeira. Outro ano se passou, MBA concluído e, pimba, aquele dia ele sentia que tudo seria diferente. Quando seu Teixeira chegou para trabalhar, Guilherme repetiu o mesmo ritual. Jogou-se na frente do senhor, estendeu-lhe a mão e disse esfusiante:

 

Guilherme – Olá, seu Teixeira!

 

Seu Teixeira olhou para o rapaz por cerca de dez minutos, raciocinou e soltou:

 

Seu Teixeira – Quem é você, garoto?

 

Guilherme não agüentou e teve um surto psicótico. Começou a quebrar tudo no escritório, gritava como um louco. “Não é possível!!!! Você tem que me enxergar!!!! Você sabe quem eu sou?????”

 

Seu Teixeira balançou a cabeça negativamente. Foi preciso chamar uma ambulância para levar o pobre Guilherme, que passou um ano inteiro em uma clínica de reabilitação.

 

Bom, seu Teixeira realmente não sabia realmente quem era o jovem funcionário. Bom, na verdade, seu Teixeira não sabe direito nem o nome dos próprios filhos.

 

Guilherme nunca mais recobrou a sanidade completamente. Nunca mais conseguiu olhar na cara das pessoas direito para cumprimentá-las, virou um sujeito recluso, com sono movido à base de anfetaminas, sessões do programa da Luciana Gimenez e filmes pornôs alugados. Praticamente um ogro.

 

A boa notícia é que ele não foi demitido.



Escrito por Alexandre Vaz às 18h04
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      Cenas da vida moderna

Mateus – Vamos jogar uma pelada

Ale Faria – Que horas?

Mateus – Daqui a pouco, no clube.

Ale Faria – Não dá para ser um pouco mais tarde? Tenho que terminar de atualizar meu perfil no Orkut.

Mateus – Cara, não dá para fazer isso depois? O clube fecha às sete. Se demorarmos demais, perdemos a hora.

Ale Faria – Vou demorar só mais um pouco, tenho cinqüenta fotos para colocar no Orkut.

Mateus – Cinqüenta fotos!!!!!!

Ale Faria – E no Multiply também.

Mateus – Cara, deixa isso para depois!!!

Ale Faria – Chama o Guilherme, depois eu vou.

Mateus – Não dá, ele não está on line.

Ale Faria – Liga para ele.

Mateus – Já mandei mensagem, ele não responde.

Ale Faria – Pois então. Liga para ele.

Mateus – Ele não responde.

Ale Faria – Então vá a casa dele e bata na porta.

Mateus – Não sei onde ele mora.

Ale Faria – Como assim???

Mateus – Não sei onde ele mora. Quando vamos nos encontrar, mandamos mensagem pelo MSN e marcamos em qualquer outro lugar.

Ale Faria – Então liga para o Beto.

Mateus – Não dá, ele está de plantão.
Ale Faria – Foda...

Mateus – Mas pediu que a gente mande umas fotos para ele do jogo...

Ale Faria – Bom, então deixa eu, pelo menos, levar minha câmera.

Mateus – Beleza.

Ale Faria – Mas quem vai bater as fotos?

Mateus – Vamos fazer o seguinte. Quando você estiver jogando, eu bato. Quando eu estiver jogando, você bate.

AleFaria – E quem fica no gol?

 

(silêncio)

 

Mateus – A gente pensa isso depois.

Ale Faria – Beleza, a gente se vê lá.

 

(silêncio)

 

Ale Faria – Mateus?

Mateus – Sim.

Ale Faria – VC AINDA NÃO SAIU DO MSN?!?!?



Escrito por Alexandre Vaz às 20h29
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      Faça um bem a você mesmo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Alexandre Vaz às 22h30
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      Estática



Diálogo baseado em uma cena do seriado Six Feet Under.

 

 

Durante uma visita ao cemitério local, Claire Fischer se depara com uma visão de Nate, seu irmão morto há dois dias.

 

Nate: Veja a quantidade de coroas de flores que recebi. É impressionante com as pessoas amam os mortos.

 

Claire: As pessoas adoram uma pessoa morta.

 

Nate: Como é fácil amar um morto.

 

(silêncio)

Claire: Já reparou como o silencio é enlouquecedor?

 

Nate: Sim. Isso costumava me incomodar?

 

Claire:  Como assim, “incomodova”?

 

Nate: Estou morto, oras

 

Claire: Ah...

 

(silêncio)

...

Claire pára, olha para Nate e, aos poucos, percebe que existe uma espécie de zunido em sua cabeça.

 

Claire: Que barulho é esse?

 

Nate: É o zum-zum-zum do mundo.

 

Claire: Que barulho chato, está me atrapalhando.

 

Nate: Como assim, chato? Você costumava adorar.

 

Claire: Como assim, adorava?

 

Nate: Você adora, na verdade, todo mundo adora.

 

Claire: Mas ele me atrapalha.

 

Nate: Na verdade, ele a deixa linda.

 

Claire: Linda?

 

Nate: Como uma morta.



Escrito por Alex às 14h21
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