Este é um caso verídico. Bom... quem me contou garantiu que era.
Guilherme Castilho era um cara com um currículo invejável. Passou no vestibular de uma universidade pública em um dos primeiros lugares, conseguiu os melhores estágios, fala inglês, mandarim e polaco (essa língua existe?), enfim. O profissional do futuro, segundo qualquer reportagem ficctícia da revista Você S.A.
Logo depois de formado, Guilherme conseguiu emprego em uma das firmas mais cobiçadas pelos colegas de sua área. Fato esse que fez questão de espalhar pelos quatro cantos, como uma espécie de cumprimento inicial. Toda vez que algum conhecido se aproximava, ao invés do tradicional “oi”, ele dizia:
Conhecido – Oi, Guilherme, tudo bem?
Guilherme - Fui contratado pela LTD & A Associados. Vou começar como trainee, mas tenho grandes chances de subir lá dentro. O pessoal lá gosta muito do meu trabalho.
Fulano - ...
Guilherme – A propósito, como você está?
Guilherme teve sorte, começou trabalhando ao lado do seu Teixeira, grande chefe do departamento. Tinha certeza de que, mais cedo ou mais tarde, seu talento iria ser reconhecido. No primeiro dia, fez questão de chegar antes do big boss e, quando viu ele se aproximar, lançou-se rapidamente da cadeira, estendeu-lhe a mãe e falou animadamente:
Guilherme – Bom dia seu Teixeira, como senhor está?
Seu Teixeira nem sequer mudou a fisionomia ao ver o jovem recém-contratado. Olhou o garoto, virou a cara e seguiu para sua sala. Guilherme logo pensou consigo: “velho escroto, ele vai me cumprimentar, assim que perceber o meu potencial. Não dou uma semana”.
Passou-se um ano. E todo dia era a mesma história. Seu Teixeira chegava, Guilherme se jogava, e... Nada. Seu Teixeira solenemente ignorava o empregado, não importava o tipo do comprimento, a cor da camisa, nada... Nada que Guilherme fazia causava impacto ao velho capitalista imundo. “Pedra de gelo safado, ele vai ver”, pensava o jovem nervoso, que já pensava se tratar de uma alguma antipatia gratuita.Uma sensação ruim começou a rondar Guilherme. “Esse cara não gosta de mim, serei demitido, mais cedo ou mais tarde....”.
Um pânico súbito tomou o coração do garoto. Não! Isso ele não poderia admitir! Demitido? Logo ele? Com um currículo invejável? Sem chances. Sua primeira providência foi matricular-se em um MBA, um curso de mandarim e uma aula de squash (nove entre dez executivos jogam squash, o outro é seu Teixeira). Participou de todas as atividades extras propostas pela empresa. Vida pessoal? Que nada... Profissional de sucesso pensa na vida pessoal após os 40 e ele só tinha 27, cáspita.
Enfim, fez tudo isso, na esperança de que os boatos de seu esforço chegassem ao ouvido de seu Teixeira. Outro ano se passou, MBA concluído e, pimba, aquele dia ele sentia que tudo seria diferente. Quando seu Teixeira chegou para trabalhar, Guilherme repetiu o mesmo ritual. Jogou-se na frente do senhor, estendeu-lhe a mão e disse esfusiante:
Guilherme – Olá, seu Teixeira!
Seu Teixeira olhou para o rapaz por cerca de dez minutos, raciocinou e soltou:
Seu Teixeira – Quem é você, garoto?
Guilherme não agüentou e teve um surto psicótico. Começou a quebrar tudo no escritório, gritava como um louco. “Não é possível!!!! Você tem que me enxergar!!!! Você sabe quem eu sou?????”
Seu Teixeira balançou a cabeça negativamente. Foi preciso chamar uma ambulância para levar o pobre Guilherme, que passou um ano inteiro em uma clínica de reabilitação.
Bom, seu Teixeira realmente não sabia realmente quem era o jovem funcionário. Bom, na verdade, seu Teixeira não sabe direito nem o nome dos próprios filhos.
Guilherme nunca mais recobrou a sanidade completamente. Nunca mais conseguiu olhar na cara das pessoas direito para cumprimentá-las, virou um sujeito recluso, com sono movido à base de anfetaminas, sessões do programa da Luciana Gimenez e filmes pornôs alugados. Praticamente um ogro.
A boa notícia é que ele não foi demitido.